A Vitória de Vagar

21 05 2006

Eu tinha um texto em mente, mas mudei subitamente para um novo conteúdo. A mudança se baseia na mente humana, especialmente a minha. Como a frase “o povo tem memória curta” costuma ser freqüentemente repetida decidi me sentir advertido e relatar aqui meus sentimentos e memórias antes que eles pudessem migrar para a parte inativa do meu cérebro. Sinceramente não sei se possuo um grande arquivo mental, mas se o possuo, uso pouco, e para não me tornar dependente a esse ponto termino aqui nessas letras.

Sentimentos sem dúvida são os guias da grande maioria textos que escrevo. Independente do assunto faço nada mais que uma terapia pessoal exposta em termos criptografados, para quem não está ciente da situação abordada. Por incrível que pareça, isso funciona e torna a alma muito mais leve, porque tudo que podia parecer atordoar fica no papel misturado à tinta e a caligrafia. Despejar sentimentos negativos com palavras é uma solução para se livrar deles, mas e sentimentos bons? Quando estamos felizes, como fazemos para que aquele sentimento leve e gerador de sorrisos permaneça conosco?

Por esse motivo estou aqui digitando. Mais uma vez sem propor verdade última alguma, mas apenas vagando através de uma postura zetética indutiva. Minha intenção é debater sobre o incerto e através da escrita tentar, mesmo que não seja a solução definitiva, e estocar minha felicidade em termos e frases. Pensar em guardar para um dia em que eu possa revisitar a sensação, já significa me dou conta de que ela irá se esvair independentemente. A memória do povo é curta e a minha também, mas as palavras permanecem.

Espero, portanto que meu intento seja consolidado, sinceramente espero poder re-sentir uma risada de bom grado. Pergunto então como chegamos ao ponto de perder a “felicidade”, já que estou me preocupando em guardá-la. Tomo atitudes e corro contra o tempo como se sorrisos já nascem com prazo de validade. O motivo para o término me é incerto e apesar de eu poder formular teorias esse não seria o objetivo. Por hora apenas me indago o fundamento e a finalidade dessa minha escrita. É raro relatar um momento feliz, mas se é, porquê? Porque não costumo e porque tomei essa atitude?

Um labirinto confuso e um tanto prolixo que me deixa apenas mais questionador e sem respostas. Sei que as minhas perguntas podem nunca achar uma resposta, mas pretendo chegar ao minotauro antes que ele chegue a mim. Resta-me apenas indagar as questões e procurar fervorosamente pela resposta, mas não deixar de sentir a leveza de um sorriso espontâneo ou a dor de uma risada na barriga. Busco principalmente relatar o calor de uma nota musical sublime que me faz sentir bem. Que me faz sentir como se tivesse acabado de descobrir o sentido da vida e como se nunca mais fosse me preocupar com qualquer rumo que tivesse que adotar. Uma sensação de confirmação que estamos no caminho certo e satisfação como um sentimento que transmite o desejo de se perpetuar por toda a eternidade. Como se não houvesse violência, como não houvesse crises pessoais, profissionais e familiares. Como se essa cidade realmente fosse maravilhosa. Como se não vivêssemos em uma realidade desigual. Me sinto feliz.

Uma imagem codificada que revela de maneira figurada a simples carreira de uma mente gladiadora presa em um labirinto da arena. Uma mente indagadora sedenta por respostas. Uma mente que almeja ser feliz e finca no solo uma bandeira ostentando a sua vitória, sabendo que mesmo que ela não volte a ser, um dia já foi. Vago felizmente porque felizmente vago. Sei que esse não é o fim.

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Conflito…

16 05 2006

Não há forma melhor de introduzir esse “blog” a não ser me posicionar contra o espaço vazio. Portanto…

Litígio, duelo, confronto, colisão ou conflito; como preferir, não faz tanta diferença assim. Apesar de não necessariamente serem sinônimos diretos, essas palavras estão ligadas a uma mesma relação semântica de “adversidade”. Entendo como uma lei fundamental para o embasamento dos conflitos a terceira lei de Newton, afinal realmente nada mais lógico que uma ação inicial e uma reação, ou seja, a essência de um conflito.


Nossos dias são repletos de conflitos, em todos os sentidos possíveis e imagináveis. Seja contra sua própria essência psicológica ou contra os segundos que marcam cada um dos seus passos, sejam eles sincronizados ou não. Desde o momento em que você levanta da cama e pensa “Que sono, queria dormir mais. Que horas são?” até quando você fica na dúvida se come pão com requeijão ou ovo no café da manhã. O seu compromisso diário com o trabalho ou estudo te obriga a levantar da cama antes da hora que você deseja, criando um conflito complexo entre seu sono e a sua “obrigação para com a sociedade (e o capitalismo)” ou não, você pode ser importunado pelo simples conflito entre ter que decidir o que é melhor: sentir o gosto do requeijão ou de um ovo frito? Ou os dois?

Essa redução a escolhas como soluções para conflitos me soa um tanto limitada e acabam criando uma noção de “pseudo-liberdade”. Hoje esse texto vai abordar estritamente a face negativa desse falso poder de escolha e vai partir diretamente para o ponto a que muitos já chegaram: “Não quero mais obrigações, escolhas e conflitos. Quero apenas descansar e vadiar”.Sinceramente essa opção nunca me pareceu uma má idéia, inclusive soa bem até hoje para os meus ouvidos. No entanto a minha indagação atual é a que ponto chegaríamos se isso fosse possível? Se pudéssemos realmente fazer “nada” estaríamos tão satisfeitos? Pessoalmente acredito que nunca ficaríamos sem fazer nada, pois o próprio ato de não fazer já é de fazer. Se ficássemos sem conflitos em nossas vidas, não haveria ação e reação e conseqüentemente sem os dois não haveria distinção. Tudo seria uma única unidade, tudo seria fato neutro. Percebe-se que para poder sentir o azedo é necessário conhecer o doce e portanto “O que seriam os momentos felizes sem os tristes (e vice-versa)” como alguém provavelmente já falou para você. De fato é uma frase simples e muitas vezes repetida, mas que se pensada pode estruturar a noção de inúmeras questões presentes hoje em dia. Você nunca desejaria fazer nada senão tivesse o que fazer e provavelmente se estivesse sem fazer nada não saberia determinar se aquilo é bom ou ruim.

Concluo, por hora, que não há solução para nos desvencilhar da ação e da reação. Eles estão sempre presentes e se algum dia o conseguiremos (essa indagação fica para outro momento) também não sabemos. Procuro fazer uso do que já é existente, afinal se o conflito está sempre presente devo usá-lo para minha vantagem. Provavelmente dai se formou a premissa de qualquer história. Ao retratarem a vida e serem um espelho da sociedade, as estórias usam conflitos para se estruturarem e darem início à criação. O conflito propõe renovação e criação. Essa é minha proposta através da escrita: a adversidade de idéias em forma de simples pensamentos questionadores que mais tarde evoluirão em prosas elaboradas com personagens que vivenciarão confrontos na pele e na mente. O processo criativo (se assim posso chamá-lo) começa através dessas reflexões digitadas e termina nas mãos sangrentas de uma mulher que acaba de ser atropelada. Acredito ser uma forma de tornar útil a tortura do “duelo cotidiano” ao transformá-la em produto criativo, mas também acredito ser apenas umas das reações. A reação dentro do duelo, o conflito dentro do confronto, um clico vicioso, uma metalinguagem sem fim; o litígio nunca acaba e está sempre presente, o que você faria?

“Que esse espaço seja a arena de muitas idéias prontas para gerar novas.”





Certidão de Nascimento

26 01 2006

O dia quando surgi
Não é exato
Mas vivo até hoje
É fato

Nasci juntamente com a humanidade
Nasci juntamente com a maldade
O humano é meu berço e meu vetor
Vou com ele onde for

Meus pais não são identificados
Não sei quem me gerou
Dessa forma é melhor
porque ninguém iria se orgulhar
do filho que eu sou

Sou um lobo perdido de sua alcatéia
Não tenho para onde ir, não tenho direção
Alguns se aproveitaram e me tornaram uma atração
Ninguém percebe, mas faço parte da sua vida
Talvez você goste de mim, talvez não
Mas você ainda não percebeu que estou segurando sua mão

Sou usado de várias maneiras
E por vários motivos
Sou a arma mais comum dos ditadores
Sou a escapatória dos que buscam sobreviver
Sou a causa mais comum para morrer

Posso ser usado para proteger como para atacar
Mas a verdade é que sou uma droga
E nunca sei quando parar!
Muitas vezes exagero…
Mas nunca me canso de machucar.

Faço parte da sociedade
Faço parte do pensamento
Por isso não terei atestado de óbito
Enquanto houver humanos

Para aqueles que são ofensivos
Fisicamente ou até verbalmente
Vocês me usam buscando danificar
Causando danos físicos ou morais
Revelando um egoísmo de alarmar

Sou um pesadelo mundial
Porém mais próximo da realidade não poderia estar
Líderes me amam e o povo me detesta
Mas nenhum deles deixa de tomar sua dose diária de mim

Dizem vocês que eu sou um terror
Dizem vocês que sou um problema
Dizem vocês que sou odiado pela população
Mas não se conscientizam que estou presente naquele filme de ação
Seja em casa…seja na televisão…
Eu sou sua criação

Como o lago reflete a imagem
Eu sou sua reflexão
Apenas exponho
o que está no seu coração

Busco apenas a sobrevivência
Esta é a minha essência
Sinto lhe informar
Mas meu nome é Violência








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