O Globo: O Novo Jogo da Música

15 08 2011

Recentemente fui entrevistado pelo jornalista Leonardo Lichote para uma matéria sobre “Músicas de Jogos”.

A matéria foi publicada hoje, segunda-feira 15/08, no Segundo Caderno do jornal O Globo e está disponível a seguir:

No princípio, eram quatro notas. Mas nenhum jogador do clássico “Space invaders” (1978), primeiro game a ter uma música de fundo contínua, deixava de notar a melodia ganhando rapidez conforme os alienígenas se aproximavam, adicionando tensão à experiência. Hoje, é mais difícil ainda não se dar conta da importância das trilhas sonoras dos jogos eletrônicos, que se afirma em termos financeiros – o mercado de games deve movimentar US$ 74 bilhões em 2011, segundo a empresa de tecnologia e consultoria Gartner Inc. – e artísticos – a canção “Baba yetu”, composta para “Civilization 4”, ganhou um Grammy este ano, o primeiro para uma música de game; e vários autores renomados de trilhas para cinema, como Danny Elfman e Clint Mansell (“Cisne negro”), trabalham também com jogos.

E, num momento de indefinição dos rumos da indústria fonográfica, vale notar que muitos garotos que amam os Beatles neste início de século XXI chegaram às suas canções via “Beatles: Rock band”, e que o Aerosmith ganhou com “Aerosmith: Guitar hero” mais dinheiro que com qualquer um de seus álbuns – que, aliás, tiveram um aumento de vendas de 40% com o lançamento do game.

Concertos, concurso e edital

No Brasil, os reflexos desse movimento estão em eventos como o Videogames Live (concertos com trilhas de jogos), que terá sua sexta edição brasileira em outubro, e no Game Music Brasil Festival (concurso para bandas e compositores voltado exclusivamente para o gênero, que está com as inscrições abertas no site http://www.gamemusicbrasil.com.br).

– A ideia do festival é aproximar a indústria que desenvolve os jogos em todo o mundo dos artistas brasileiros – explica Sergio Murilo Carvalho, produtor do concurso e também do Videogames Live brasileiro. – O potencial é gigante, e o mercado está à espera dos artistas brasileiros.

Um exemplo é o compositor Pedro Bromfman, que fez a trilha sonora de “Tropa de elite” e foi convidado pela empresa americana RockStar, do jogo “Max Payne”.

Primeiro do gênero no Brasil, o concurso mostra um tanto da popularidade do gênero por aqui – e do quanto ele tem para crescer. Desde 20 de junho, quando as inscrições foram abertas (elas se encerram em 20 de setembro), quatro mil pessoas se cadastraram no site para inscrever seu trabalho ou para votar nos concorrentes das três categorias: trilha sonora (criar uma trilha para uma amostra do jogo “Critical mass”), banda (tocar uma trilha existente) e game indie (desenvolver um jogo completo, trilha incluída).

Se o Brasil ainda começa a entrar nesse mundo das trilhas para games, o Japão presta atenção nele desde os anos 1980 – no fim da década, já circulavam por lá fitas cassetes com músicas dos jogos mais populares então. Hoje, a prática é feita oficialmente, e com alcance mundial, via distribuidores como iTunes e Amazon, que vendem as trilhas.

– Acredito que um dia uma música vai ser composta para um jogo, será lançada e se tornará um hit antes mesmo de o jogo ser lançado – aposta Bob Rice, diretor da empresa americana Four Bars, que agencia diversos compositores de músicas de jogos.

As previsões de Rice ganham força quando se percebe que vários terrenos antes estranhos aos games começam a se abrir a eles. O Grammy terá, a partir de 2012, uma categoria na qual o termo “música de videogame” aparece. E a Secretaria Estadual de Cultura do Rio acaba de lançar um edital voltado para os jogos eletrônicos.

Para Cristopher Tin, o autor de “Baba yetu”, o preconceito contra o game como espaço de produção cultural não é mais uma realidade:

– Talvez houvesse certo estigma há dez anos. Mas acredito que nós, compositores de games, ajudamos a acabar com isso.

Os games funcionam também como plataforma para que músicas já existentes alcancem um público maior. Através do licenciamento de suas canções, artistas como os citados Beatles e Aerosmith, além de Linkin Park (“Medal of honor”), Gilberto Gil (“Fifa Soccer World Cup 2010”) e indies como a banda The Heavy e a cantora Lykke Li (ambos em “Batman: Arkham City”) projetam suas canções muito além de seus públicos. Num exemplo extremo do cruzamento das realidades, o compositor Tom Salta, autor de trilhas de games como “Prince of Persia: The forgotten sands”, entrou na área licenciando músicas que compôs pensando… em games.

– Comecei a fazer pesquisas e a frequentar todas as feiras de jogos. Concluí que a melhor alternativa seria criar um álbum solo de músicas que julgava perfeitas para games, TV e filmes. Assim nasceu o Atlas Plug, alter ego que usei para me estabelecer na indústria de trilhas para games. Passei a licenciar as músicas para games e logo consegui emplacar músicas em alguns – conta.

Estética para o gênero

A evidência de uma estética específica da música para game aparece ainda mais clara no chiptune, gênero que evoca os timbres eletrônicos gravados na memória de qualquer jogador de Atari.

– São músicas originais criadas a partir dos chips de consoles antigos de videogame – define Arthur Protasio, coordenador do CTS Game Studies, do Centro de Tecnologia e Sociedade da Fundação Getulio Vargas. – A banda Anamanaguchi, que fez a trilha do jogo “Scott Pilgrim vs. The World”, mistura rock com essa influência eletrônica da década de 1980. Pessoas que não conhecem podem escutar e pensar que é “música de joguinho”, mas ficariam espantadas ao saber que a música não foi feita para um jogo e é apresentada em shows em diversos países. Há coletivos de chiptune presentes no mundo todo, inclusive no Brasil, e festivais do gênero reúnem centenas de milhares de pessoas.

A relação entre músicas e jogos, portanto, tem ainda muitas vidas antes do “game over”.

(Fonte: O Globo – Segundo Caderno. 15 de agosto de 2011)


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