O Baile de Máscaras

13 07 2006

Como ela era linda. Aquele corpo escultural estendido na cama ao meu lado simplesmente significava que ao longo do tempo soubemos lidar um com outro para ao final nos encontrarmos completamente desmascarados. Exatamente como somos, sem nenhum escudo, como quando nascemos. Atingimos o ápice da sinceridade e nada poderia nos tirar essa vitória, por difícil que ela tenha sido. Nos tornamos livres, exatamente como sempre devia-

– Bom dia amor. – a voz dela interrompeu meu monólogo mental.

– Bom dia.

– Ficou me olhando enquanto eu dormia, é?

– Não resisti. – Aproveitei para brincar, nada melhor que começar o dia em um bom humor.

– Que lindo. Você sabe que eu te amo, né?

– Eu também te amo.

– Não, eu amo mais. Eu faria de tudo para estar com você. – Realmente nesses últimos meses eu nunca havia sido entulhado com tantos presentes e afeto. Tive a impressão que nunca conseguiria tirar aquela imagem meiga da minha mente.

– Lindinha, ta ficando tarde. Vamos levantar?

– Ah não. Fica só mais um pouquinho comigo vai.

Após algum tempo nos começamos a arrumar e até esse ponto nada de diferente havia ocorrido. Até o café da manhã:

– Amor, passa a manteiga por favor. Obrigada. Olha só, hoje vou te chamar pra minha sala durante o dia, mas não se espanta não, ta? Não vai ser nada demais.

– Sei. – Não agüentei e ri um pouco. – Na última vez que você fez isso a gente tentou disfarçar, mas até agora não sabemos se nos ouviram. Melhor nem arriscar dessa vez. Aqui a gente tem mais paz.

– Não precisa lembrar. Tenho a impressão que estão me olhando estranho agora.

– Ah! Que isso. Ai já é coisa da sua imaginação. Qual problema em você rir quando vai pra sala da chefe?

– Deixa pra lá. Só num toma susto hoje quando eu te chamar.

– Tudo bem. Vamos então?

– Pode ir na frente, eu vou chegar um pouco depois hoje porque ainda tenho que arrumar minha mala.

– Que desculpa. Eu espero então.

– Não. Vai na frente, não quero que você chegue atrasado.

– Você vai demorar tanto assim?

Ela me beijou e se despediu novamente para depois entrar no banheiro. Não tive paciência para discutir. Estranho porque semana passada ela disse que iria junto comigo, acabou me seguindo no carro dela e por motivo nenhum parou e em um sinal aberto. O caos no trânsito começou a ficar tão grande que eu decidi seguir em frente. Era quase como se ela não quisesse chegar junto comigo no trabalho.

A rotina seguiu normalmente a partir daí. No escritório, vulgo o famoso baile das máscaras, encontrei Carlos grande amigo meu de trabalho contando uma história para os novos estagiários.

– Vocês precisavam ver a cara de desespero do garoto quando eu reclamei que ele havia esquecido de organizar os arquivos em ordem cronológica. Ele começou a chorar e pedir desculpa. Nessa hora eu pensei, “esse garoto não sabe trabalhar e não presta” e esse foi o nosso último estagiário aqui.

Sem dúvida o rosto aterrorizado dos novos recrutas era impagável, mas ninguém sabia que ele havia tomado uma bronca também inesquecível do seu superior e que a história do estagiário era toda balela. Dei apenas dois tapas amigáveis nas costas dele e segui para meu cubículo.

No caminho encontrei com a adorável Edna. Provavelmente umas das funcionárias mais antigas na empresa e também em faixa etária, pois devia beirar seus 70 anos. Nunca entendi como ela não havia sido demitida porque desde que ela se divorciou do marido e perdeu uma boa quantia de dinheiro passou a atender muito mal pelo telefone. Era praticamente uma ironia colocá-la como funcionária do SAC e não era a toa que poucas reclamações passassem por ela e chegassem até alguém superior. Estranhamente fora do telefone era um amor de pessoa e sempre disposta, desde que ficasse evidente que de alguma forma ela era superior a você.

Uma breve troca de “bom dias” me fez caminhar em frente já que ela parecia ocupada ao inventar mentiras para o cliente falando que o sistema estava fora do ar e aumentando o prazo padrão para a entrega de documentos. Aquela clássica ladainha que é engraçada para quem está desse lado da linha e um inferno para quem está no outro.

Chegando ao meu pequeno recinto coloquei a pasta na mesa e comecei a trabalhar. Algum tempo depois com dois copos de café apareceu Tiago.

– E ai garanhão. Aceita um café?

Ri levemente peguei o café da mão dele e perguntei sorrindo:

– Come que é?

– Você sabe pô. Num me vem com essa cara de inocente. Todo mundo viu você saindo com um sorriso da sala da chefe.

– Que isso cara. Ela contou uma piada e eu ri. É proibido sorrir agora dentro do escritório, é? Ela só é minha amiga, fica tranqüilo. Sem essa de rosto inocente porque o meu apelido não é Santinho.

– Eita. Pegou pesado agora. – O apelido do Tiago era Santinho, afinal ele tinha uma tremenda cara de santinho mesmo. Poucos na verdade sabiam a pessoa tarada que era. Em ocasiões já cheguei a vê-lo com inúmeras mulheres em uma mesma noite. No entanto no escritório ele vivia uma outra personalidade chamada Santinho. Não é que fosse o capeta, mas escondia algo por trás daquela meiga face. No entanto enquanto costumava esconder o que fazia eu costumava divulgar. – Então quer dizer que num ta rolando nada com ela?

– Ela é minha amiga. Só isso. – Mas toda regra tem sua exceção. Eu disse “costumava”.

– Tudo bem. Eu acredito. Me diz uma coisa, o almoço ta de pé?

– Claro. Então até lá.

O trabalho teria seguido normalmente pelo resto da manhã se não fosse por uma esperada interrupção. O telefone tocou e era o meu convite para sala da chefe.

Era engraçado como eu podia sentir os cubículos me acompanhando com seus olhos enquanto eu caminhava corredor a baixo. Geralmente isso seria um momento de glória para mim, mas circunstâncias atuais me faziam colocar a máscara de garanhão de lado e reconhecer que não era proveitoso nesse caso. Nem sempre a fama exagerada dos meus feitos me colocaria em uma posição favorável e essa era uma dessas situações.

– Feche a porta por favor senhor.

Eu apenas sorri com a brincadeira dela e fechei a porta.

– Veja só meu estimado empregado. Apenas lhe chamei aqui para exigir um tratamento mais respeitoso da sua parte. De agora em diante meu nome não basta e nem mesmo me chame pelo clássico apelido de “chefe”. Coloque sempre o “doutora” antes de meu nome e preferivelmente use Souza, meu sobrenome.

Meu rosto perplexo e atônito descrevia exatamente como eu me sentia. Eu estava desmascarado e despreparado para aquele momento.

– Tens algo a dizer senhor?

Consegui balbuciar uma frase com dificuldade:

– Mas ninguém te chama assim aqui e você não perde respeito por isso.

– Pois então farei com que todos tenham certeza que eu não perderei meu respeito. Pode ir agora.

Não estava em condições de argumentar ou insistir. Foi um golpe baixo.

Sai da sala cabisbaixo e desanimado. Ela ouviria a minha bronca mais tarde, mas por hora, em prol da relação, eu seguiria com o plano mascarado dela.

No caminho de volta para meu antro labutário ouvi alguns colegas falando:

– Olha só. Ta vendo ele ali. Aquele tomou bronca da chefe. Deve ter feito alguma besteira e todo mundo sabe que com ela não se brinca. Ela é tão séria que ninguém a desrespeita. Praticamente exala autoridade e em casa deve ser uma fera.

O outro colega havia me visto e complementou:

– Pode ser, mas eu acho que esse ai é o adestrador da fera.

– Que nada. Ele pode arrumar muita mulher por ai, mas essa eu duvido. Só um mestre poderia estar com a chefe.

Pensei em Carlos, Edna e Tiago. Pensei na Doutora Souza. Pensei em mim. O sangue subiu à cabeça, coloquei minha máscara e dei meia volta.

– Opa. Vocês estão falando de mim, é? Deixe-me contar uma história pra vocês.


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